quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dia após dia

Dia após dia é uma frase que ouvimos constantemente na nossa vida. É impressionante o quanto essa fala pode ser levada a inúmeros significados, tipo você pode comer dia após dia, sobreviver dia após dia, trabalhar dia após dia, se decepcionar dia após dia... Já deu para entender né?! Acho essa expressão "dia após dia" tão simples, mas tão sábia também que acabo a usando para tudo na vida, é impressionante.

Sabe, hoje é finados e, como sempre, está nublado e chuvoso. Gostaria de saber o motivo de sempre chover em finados. Talvez alguém lá em cima se sinta triste com esse dia, ou talvez os anjos chorem pelas perdas em uma compaixão molhada com as pessoas que ainda estão na Terra, vivendo seus dias após dias. Oh, desculpe me por essa, estou um pouco religiosa nos últimos dias. Esse fato te decepciona ou te faz ficar feliz? No meu caso, neutra.

Lembro-me ainda de quando fiz a primeira pessoa importante da minha vida se decepcionar comigo. Estava na escolinha particular de uma cidade em outro estado. Sem família, sem amigos. A época do jardim de infância/pré-escola pode ser realmente traumatizante quando você não se encaixa a ela, afinal engana-se Rousseau ao afirmar que crianças são boas e a sociedade as corrompe, pois de anjinhos só a face.

Minha professora, Elaine o nome dela, era uma das minhas poucas amigas naquela época. Acho que talvez esse seja o motivo de eu me dedicar tanto tempo aos meus estudos, afinal não é sempre que sua primeira amiga é uma professora. Ainda lembro-me de seus cabelos longos e compridos, sua franja meiga e o batom vermelho-rosa que usava todos os dias. Em um dia desses pediu para meus pais a permissão de me levar na casa dela brincar com Gustavo, seu filho recém nascido. Seu marido comprou pizza de um lugar cinco estrelas e usamos a internet, na época ainda discada. Ainda me lembro das paredes azuis bebê e da enorme janela na entrada. Uma perfeita casa de condomínio, dito de outro modo, um pedaço de filme norte americano no Brasil.

Algum tempo depois chegou o dia da foto naquele ano. Eu não quis ir no dia, estava cansada de ser ignorada por coleguinhas. No dia seguinte, Elaine me olhou triste e argumentou que até Gustavo havia participado e eu não. Não sei qual o sentimento se formou em mim, mas me doeu muito. Decepção é algo torturante, devo dizer. Alguns meses depois Elaine se desligou da escola e eu nunca mais a vi. Talvez a última lembrança que ela tenha de mim seja a menina que foi a sua casa e brincou com seu filho ou talvez seja a menina que a decepcionou por faltar na escola no dia da foto. Difícil dizer, mas estive me perguntando sobre isso recentemente.

Decepcionar não é algo saudável e que não deva ser praticado com frequência, mas é verdade também que sem ela não aprenderíamos com nossos erros e aquele famoso ditado "não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem para você", afinal se não quer ser decepcionado basta não decepcionar. Isso, obviamente, não quer dizer que devemos abraçar o mundo, mas saber quando dizer não.

Isso me assombra, pois ainda estou aprendendo a dizer não. Confesso que é algo nada fácil, mas necessário. Contudo, ao julgar por hoje ser o dia dos mortos e depois das duas horas da tarde começar a surgir raios de sol e um céu azul, milagres realmente possam existir. Se em finados não está chovendo, somos todos capazes de dizer não e amadurecer no ramo da decepção, basta viver um dia após outro.

"[...]
Espero que você enterre a nossa promessa
De estarmos juntos para sempre, querida eu rezo por você

Não olhe para trás e saia
Não me encontre de novo e viva
Pois eu não lamento ter te amado tanto
Tenho apenas boas memórias
Posso suportar isso de alguma forma
Posso me levantar de alguma forma
Se você é assim, deveria ficar feliz
Fico angustiado dia após dias
[...]"
(Haru Haru - BigBang)