quarta-feira, 15 de junho de 2016

Doces sonhos

O outono então começa a dar seu cálido adeus e boas vindas ao astuto inverno. A noite era escura, poucas estrelas no céu e muitas nuvens transparentes por ali. A enorme árvore que cobria a portaria, onde se localizava, não havia perdido todas as suas folhas e, assim, completava o cenário gélido daquela noite, juntamente a fraca luz branca.

Um vento frio seguia como rota aquela fenda, assim como outros estudantes. Hoje estava sozinha, talvez nunca fora liberada tão cedo. A cada pessoa que passava, um suspiro. Queria sorrir, mas sorrir não podia, batia o queixo timidamente. Tinha como pensamentos uma observação: escutar sua mãe e se agalhar direito. Mas para quê? Apesar dos apesares, a cada dia tinha mais certeza que estar ali ou não era o mesmo que nada. Sendo assim, sem fazer falta ou diferença, não importava-se de ficar doente. Na verdade talvez fosse um peso a menos.

Segurou o riso. Era gozado pensar assim, triste também. Mas, felizmente ou não, a verdade. Podemos ter doces sonhos, mas as pessoas nunca tem doces sonhos com você, querem apenas usar e abusar de você enquanto podem. O foda, foda mesmo, é quando permitimos. E o pior ainda nesse foda, é quando sentimos falta de ser usada quando acaba. Um vício estranho para se ter no lugar de se cortar, garota! Era o que seu anjo dizia em seu ouvido, mas ignorou.

_ Churros, moça bonita? - Alto, olhos traiçoeiros e agasalhos verdes. Piscou diversas vezes como resposta, não era consigo, era?
_ Ah, hã...Hã...

Suspirou novamente encarando seus sapatos de couro, um par de coturnos pretos e um salto como complemento. Moça bonita, bonita moça. Já notou como essas duas palavrinhas parecem cócegas no nariz em um momento que você não pode se saciar? Estranhamente pensou no rapaz que lhe arrancava alguns suspiros nas últimas semanas. Pegou o celular discretamente e digitou: "sonhar com você? Eu sonhei com você essa noite. Foi bom, mas poderia ser real", apagou corada, ousada demais para uma sem sal como ela. Audácia demais para um pedaço de merda que ela era, até porque nasceu para ficar sozinha e que se em todos esses anos nada funcionou, agora não era uma exceção. Mas poderia ser....

_ Tchau, até amanhã!
_ Até. - Respondeu sem olhar. Subitamente a noite gélida lindamente de outono tornou-se algo amargo e triste. Queria chorar, mas como chorar quando seu corpo todo treme com sensação térmica negativa?

Um carro piscou a luz, o sinal de que sua carona havia chegado. Levantou a passos largos e adentrou ao carro negro. O ar quente estava ligado e o choque de temperatura foi inegável. Ver tudo em movimento espantou os pensamentos ruins, como se os mesmos tivessem ficado na portaria de antes. Pena ser mentira. Suspirou manhosa, instalando um sorriso automático na face.

_ Como foi?
_ Média. Mais que média, tirei máxima.
_ Fez mais que sua obrigação.
_ Eu sei.

Fechou os olhos, a boca e por alguns instantes a respiração. Realmente mais que a obrigação viver em um mundo que se resume a ser abusada  e abusar, usar e ser usado, amar e esquecer que amou. Queria sua cama e apenas se afogar no que não era real, quem sabe assim pudesse ser feliz, não?!

Doces sonhos são feitos disso,
Quem sou eu para discordar?
Eu viajei pelo mundo e pelos sete mares,
Todo mundo está procurando alguma coisa...
Alguns deles querem te usar,
Alguns deles querem ser usados por você,
Alguns deles querem abusar de você,
Alguns deles querem ser abusados...

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Eu quero ser tudo aquilo que eu não sou

_ Nossa, que sorriso é esse?

Eu não sei. Que sorriso é esse? Somos humanos, criamos diversas faces quando queremos algo, ou melhor, esconder algo. A questão é que alguns ditados acertam mais que roupa preta em festa e dessa vez não foi diferente. Alguns males vem para o bem, não é? Começo a concordar com isso.

As vezes somos bruscamente jogados ao fundo do poço, perdemos a coragem e a vontade de tentar de novo. Cospem nos nossos sonhos, pisam em nossos anseios e desprezam nossos sentimentos. Como saímos dessa, não é? Como é possível não querer desejar a morte em momentos tão rotineiros como esses? Mas é, as vezes rola!

Mudar é sempre o primeiro ponto, mudar o quarto, os livros, os olhos, a vida. Fechar os olhos e ser tudo aquilo que você não é, sair fora de vista e apenas ter um bom dia, mesmo que frio. Foda-se os romances a minha volta, eu vou apenas dar o meu melhor sorriso e não mais chorar, escolher outras formas e mudar a alma.

_ Que sorriso? Estou normal.

Eu ainda me reconheço no meu mais profundo íntimo e um toque azedo de limão do sol. Mas posso lidar com isso, trancar tudo com chaves e fingir que estou bem. Chegar em casa depois de uma prova filosófica onde questionar é responder. Verei meus amigos e beber aquilo que tiver na geladeira, vermelho e agridoce como vodka que se preze deve ser. Não há fins imagináveis quando se possui o universo como estrada da vida.

_ Tem certeza?

Sentir-se louco é maravilhoso. Posso voar se pular dessa janela e também posso esbanjar amor como glitter em cartolina, tudo é possível quando não se está bem, mas tem noção de que não está mais no fundo do poço, que ergueu do fundo do mar. Sim, eu não estou mais ligando para romances, mas será tão doce seus lábios nos meus. Doce como caramelo e maçãs do amor, alias, acho que mesmo depois de velha ainda posso me apaixonar sem estar apaixonada. Enfim, você pode sonhar comigo?!

_ Absoluta.

Eu preciso chegar em casa para ver meus amigos
(I need to come home to see my friends)
Eu preciso me acalmar de me sentir louco
(I need to come down to feel insane)
Eu sei que não estou bem agora
(I know I ain't cool right now)
Eu estou eufórico como um idiota, eu estou fora de vista agora
(I'm as high as fool, I'm outta sight yeah)