sábado, 30 de abril de 2016

Frente fria

Retroceder no tempo me parece no momento algo tão presente. Isso é complicado de entender, mas ainda mais de vivenciar a sangue frio. Literalmente frio, temperaturas baixas e uma ansiedade por mudar o ambiente. Ansiedade feito pessoa muito suja quando toma banho quente e relaxa os músculos com o tempo.
Uma nostalgia sem modos, sem educação. Invade assim meu coração, destruindo toda minha recente franqueza. Escureço os cabelos como escureço minha mente, trancando permanentemente alguns lados meus. É difícil tomar tais decisões, mas chegou a hora, com pressa a curto prazo.
Olá frente fria. Obrigada por atender meu pedido. Não se acanhe e fique o tempo que for necessário. Por incrível que pareça, você é tão fria a ponto de me esquentar em chamas sólidas. É uma sensação que a muito não sentia e talvez fosse meu singelo destino desde o início dessa história. Obrigada.

domingo, 17 de abril de 2016

Banana com canela

Eram um total de seis pessoas, reunidas em um sábado. O tempo era quente, porém havia uma brisa fresca e boas sombras graças as árvores do local. Cada um com seu estilo, sua vida e sua forma de pensar, todos opostos uns aos outros e ao mesmo tempo tão iguais graças a um elo que os unia: o mesmo curso.
Os estômagos roncavam e assim estavam naquela pequena lanchonete em uma rua de ladrilhos como asfalto, ocupando duas mesas e seis cadeiras. O cheiro de suco de laranja, salgados, Coca-cola e hortelã invadiam suas narinas e lhe trouxe uma estranha sensação de prazer. A porta estava bastante aberta, discretamente lançou o cabelo para o lado de modo que o vento pudesse refrescar sua nuca. A televisão, posta como um quadro na parede do caixa, transmitia algo sobre o governo e logo ambos foram se servindo. No começo ficou um pouco tímida, não havia dinheiro suficiente para aqueles preços e, devido a obsessão por emagrecer, havia levado lanche de casa: banana com canela. Vendo seu constrangimento, duas pessoas a convenceram e lá estava ela comendo lentamente seu lanche. Se surpreendeu ao gostar mais dele do que a bela e suculenta coxinha na vitrine.
Pela primeira vez não ficou o tempo todo calada com aquelas pessoas, se permitiu abrir-se para conhecê-los e ser conhecida também. Falaram de política, graças a tv, e sobre relacionamentos também ao qual, mais uma vez, provou sua ignorância dando conselhos sem entender nada sobre o assunto. Discretamente notou seus professores os observando junto a uma psicóloga que a encantou por sua palestra e estilo exótico. Achou aquele detalhe importante, contudo, irrelevante para o momento.
Quando havia, enfim, encerrado o horário de seu intervalo naquela manhã de sábado, adentraram novamente os seis pelas calçadas da universidade em risos altos e brincadeiras. Tinha consciência de que ali nenhum era seu amigo, mas sentiu-se de certa forma integrada e com liberdade para falar sem medo. É como se estivesse no Clube Dos Cinco como expectadora e graças a aquele(s) sábado(s) "forçado(s)" a irem a instituição, neste contexto por conhecimento e não punição, estivessem criando um laço para o momento. Isso era raro com estranhos, ainda mais em um momento tão delicado em que vivia. Sentia um vazio constante, algo estava-lhe faltando, mas por alguns segundos se deu o luxo de esquecer essa dor e simplesmente agir.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ser repugnantemente

Por que as pessoas sempre vão embora? É uma pergunta que sempre me perturba a noite. Hoje, porém, passei a descobrir a resposta: porque eu as faço ir. Isso soa masoquista, não? Mas é algo que não questiono mais.
Me coloquei no lugar do próximo. O que ele veria, o que ele sentiria, o que ele tudo. Sabe o que sou? Um verdadeiro monstro camuflado, alguém sem voz e coragem, um ser repugnante que não deveria estar vivo agora se você quer saber. Qualquer um consegue ser melhor que essa pessoa que eu me tornei. Sou tão ridícula, tão absurda, que John Bender cuspiria contra mim. Acredite, ele teria toda a razão do mundo em fazer isso, pois o que eu sou nem mesmo ele poderia aguentar.
Eu me odeio e odeio o que me tornei. Odeio o fato de eu nunca mudar isso e mais ainda o motivo pelo qual estou viva. Queria, com toda a minha fé, coragem suficiente para terminar com essa história, pois é isso que eu mereço como final. Final felizes não existem, se existem o meu é a morte.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O ato do pensar

Cala-se a voz, tampa-se os ouvidos e fecha-se os olhos. Na mente habita apenas o vazio ardiloso, escondendo décadas de lutas para enfim deixar apenas o silêncio rondar por ali. A vida era um completo pré-texto de roteirista falido, totalmente no automático e nunca permitindo-se pensar, pois afinal, pensar era uma arma. Agora compreendia.
O pensamento tem o dom de engrandecer qualquer um. Pode te levar a mundos que só você deve visitar, tal como te dá o conhecimento dos Deuses. Pensar é algo bom, exercitar a mente e ser dono de confiança pelo simples fato de pensar e saber por na prática, no papel talvez, o que pensou. Mas pensar também é um veneno. Pensar te leva a memórias que nunca vão voltar, a miragens que nunca vão acontecer. Pensar te leva ao paraíso e ao inferno apenas em segundos. Pensar te faz gritar, chotar e escutar juras que nunca serão cumpridas. Pensar te leva a amar e amar é assinar sua própria sentença de morte.
Parar de pensar é algo difícil. Creio que quando se tem o primeiro pensamento está terrivelmente amaldiçoado a nunca mais parar, afinal pensar é uma linha de lã infinita, linha essa que te laça o pescoço toda madrugada. Porém, mentir também é pensar. Mentir que nada pensa, criar essa tola ilusão, por incrível que pareça, funciona. Não eternamente, infelizmente, mas por tempo o suficiente para os olhos arderem de cansaço e o corpo enfim relaxar. Pensar é um ato simples, porém rico em causar sentimentos nada simples. Pensar é torturante, uma verdadeira tragédia literária: não importa o final, pensar sempre te levará a desgraça, a morte. Vamos brincar? Brincar de não pensar, mesmo que estejamos pensando para isso. Pensar é ter sabedoria, contudo, pensar é, sem dúvida alguma, o purgatório em vida.

domingo, 3 de abril de 2016

Monstrinho

Monstro, monstrinho, monstrão.
Quando somos monstros podemos
nos esconder em um planeta só nosso?
Gostaria de me esconder e nunca mais aparecer.
Se viver é uma brincadeira, eu cansei de brincar.