quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Monotonia noturna

Virava de um lado para o outro. O lençol da cama já estava todo bagunçado tal como a coberta que havia virado uma bola de pelos. A respiração era densa e pesada. Os olhos abertos denunciavam o misto de sonho e realidade, mesmo que em seu subconsciente se instalava pesadelos seguidos de pesadelos pelos quais ela só queria encontrar a realidade de uma vez.
As alças de sua blusa sobre os ombros era uma das poucas visões de que obtinha antes de novamente se virar para o outro lado. Nenhuma posição lhe trazia paz noturno, mas sua busca não havia terminado ainda. Sentia os cabelos ficarem cada vez mais bagunçados devido aos movimentos e o pouco suor que juntava em sua nuca.
O despertador tocou um tempo depois. Não demorou nem um minuto para estar sentada na cama com os pés desnudos tocando o gélido chão. Um pouco de vertigem acompanhados pela confirmação do cabelo extramente ouriçado.
Admirou a cortina fechada por alguns minutos antes de abri-la. A luz do horário ainda era um misto de azul e roxo, com poucas nuvens ao horizonte. Alguns pássaros cantavam bom dia, mas a noite mal dormida não a deixou admirar de fato tal obra. A luz que invadia seu quarto agora passava para o amarelo para perder a força logo em seguida por uma densa neblina.
Espreguiçou até estralar alguma parte do corpo. Suspirou sentindo-se vazia, literalmente vazia. Calçou os chinelos sem olhar para o chão e então prosseguiu, acompanhada de seu cachorro, para cozinha, onde mais um dia se iniciava. Um longo dia.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Furacão sem liberdade

Por onde eu passo, destruo tudo. Não fica nada em pé. Um sussurro equivale a um grito sônico devastador não só de tudo e todos como de mim também. Uma paisagem fria e densa se forma, não há nada de lindo e atrativo nisso. Só resta o isolamento e a aceitação da solidão.
Não há mar, nem terra. A vegetação toda se esvai. É estranho isso, quero abraçar o mundo de amor e só causo mais repulsa e ódio. Receber olhares tortos e mesquinhos ao som de calúnias.
Complicado isso. Vou seguir um rumo sem rumo, porém não posso. Não posso porque me obrigo a não ir, a não querer e a não viver. Talvez eu deva encarar como lei que viver não possa estar nos meus planos. Nunca esteve se formos contar que, segundo ouvi dizer, nunca deveria ter surgido nesse planeta.
Eu sou um furacão sem liberdade em terras frias. Posso chorar um oceano todo que ainda assim não deixarei de ser um furacão. Nada muda se eu não mudar, mas como ter forças de mudar quando não se possui um escudo de qualidade? Talvez seja mais uma desculpa para tentar aceitar e tentar não se ferir mais. Extremamente frustrada comigo. Contudo, ainda sou um furacão sem vento, que tem como maior objetivo acabar com tudo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Voltar no tempo

Sabe "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" quando Hermione e Harry conseguem voltar no tempo através de um Vira Tempo e com isso modificam muitas coisas que deram errado e, basicamente, fazem um futuro melhor? Bem que poderia ter essas oportunidades na vida da gente, não acham?
Obviamente que muitas vezes não teria tanta necessidade assim, afinal penso que algumas cagadas que vivemos nos fazem aprender boas lições e ser quem somos hoje, maduros ou não. A questão é que tem algumas burradas que você faz e acaba prejudicando quem não tem nada com os seus erros, e para isso sim eu queria poder voltar no tempo e fazer diferente.
Hoje está sendo um daqueles dias que me sinto isolada e sozinha, onde as conversas que escuto passam em branco e as poucas que participo vejo como um apelo desesperado para sair da amargura e graças a isso prejudiquei uma pessoa com uma coisa tola que poderia muito bem ter esperado para ser enviada.
Culpa, arrependimento, vontade exagerada de chorar a cada minuto e uma dose extra de pedidos internos para ficar sozinha de baixo das cobertas sem falar com ninguém por um tempo é tudo que se passa por mim agorinha. Como sempre, eu estrago tudo a minha a volta, não canso de dizer que talvez seja minha vocação. Só espero que tudo se resolva da melhor maneira ou então nunca vou conseguir de fato me perdoar por isso.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Pedaço de um diário pessoal

"Pois é, estou aqui escrevendo de novo. Não é mais um diário contando sobre meu dia, mas só uma pergunta tola: onde foi parar minha essência? Já não sinto mais meu suposto cheiro da vida e já não sei mais o que é escrever em uma folha de papel.
Tanta coisa (vem mudando) mudou esse ano, contudo nada mais que meus pensamentos, ou talvez eu finja que os mudei - não descarto essa possibilidade. Estou cada vez mais louca e mais algumas coisas que ainda não consegui descobrir ou descrever o que seja. A questão é: estou sorrindo escrevendo isso aqui (ao som de músicas britânicas e um chá gelado), de volta a você, caderno besta, só para me lembrar como é isso. Talvez eu de fato lhe abandone um dia, querido diário, porém não vou criar novas metas não cumpridas. Só espero que até estas folhas acaberem, que goste deste meu singelo garrancho."

[15/12/15 - pedaço de um diário pessoal]

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Um texto sobre a morte

"Se a morte é um descanso, prefiro viver cansada", esse era o discurso que a vó dele defendia veemente desde que ele, meu amigo idiota, se entendia por gente. Como um furacão que passa destruindo tudo que vê pela frente, nós três descobrimos uma doença já avançada em nossos avôs - avó no caso dele. Foram em torno de três a quatro meses para cada, até que a morte os levasse para um passeio sem volta.
A gente pensa que apenas nós podemos entender o que é passar por isso, mas com outros depoimentos percebemos que não. Existem muitas pessoas que também vivem o luto e para cada um é de uma forma diferente de absorver. Meu amigo idiota há pouco me contou sua experiência, ela sempre fazia piadas sobre a morte e já havia dado sustos sobre isso três vezes, o que carinhosamente me lembrou a vovó Chiyo do anime Naruto.
Mesmo no leito de morte ela não parou de brincar. O irmão do meu amigo idiota colocou a musica do "Alto da Compadecida" e ela brincou com os dedos para logo após sorrir. Então ela apertou a mão de sua filha e chamou pelo marido, que confortavelmente disse "vá em paz e com Deus, descanse agora" e enfim ela teve seu último suspiro e seus olhos perderam o brilho. De frente ela estava meu amigo idiota tendo sua pior experiência de vida, segundo ele mesmo me afirmou.
Engraçado a morte. Curioso as visitas no mesmo período de tempo. Triste o luto, que levam os melhores tão cedo. Literalmente algo que não indico nem para meu pior inimigo. Doce morte, Sr. Rorin, agradeço por livrá-los do sofrimento que é esta doença, mesmo a gente querendo muito continuar ao lado deles. É difícil aprender a conviver com esse tipo de saudade, mas acredito que não nos resta outra alternativa agora. Cuide bem deles onde quer que esteja.
No fim, como disse uma grande amiga: a carne perece, a alma é eterna. O fim de todos nós é o mesmo, precisamos apenas encarar isso e saber compreender que um dia também seremos levados. Nada de choro ou sofrimento, tudo tem seu tempo e sua hora. Talvez o conselho "viva hoje como se fosse o último dia" nunca fez tanto sentindo quanto agora.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Capa vermelha

Bagunçado o meu quarto está. Tal como minha vida, meus sentimentos, meu cabelo. Nada está no seu devido lugar, nem mesmo eu. Deslocada, talvez eu não faça parte daqui. Cansada de me arrepender, de não conseguir dizer sem querer e não viver.
Quadrado no triângulo, triângulo no circulo, circulo no quadrado. Nada no seu devido lugar, nada fazendo sentindo. Não sou capaz de me mover daqui até ali, imóvel e preguiçosa no escuro. Zona de conforto, como gosto de dizer.
Incapaz, inútil. Chorar e organizar. Preciso organizar essa bagunça, mas não posso. A maçã não é mais gostosa como deveria, a pera perdeu seu sabor...
Enfim, para arrumar essa zona, preciso de um guia que modifique tudo aqui. Um guia que me mude como Ulisses mudou Lóri. Alguém que, bem, como possa dizer, que tenha a intensidade, por assim dizendo, que ambos possuem.
Mais choro, mais tristeza. Acho que o remédio e distrair a cabeça, enganar minha mente. Talvez resolva, espero eu.

(Para entender o que eu quis dizer, por meados, sugiro que leia "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", Clarice Lispector)

domingo, 6 de dezembro de 2015

Gota a gota pelo ralo

Uma parte se esvai aos poucos, como uma chuva que escorre pelo ralo. Não consigo entender, ou talvez eu não tenha coragem o suficiente para descer esse muro sozinha. Não consigo encarar nada sozinha, patética.
Esse silêncio me irrita. Essa sensação de ver alguém idosa querendo ser uma criança só para chamar atenção, também. Gota a gota, vou pingando. Um texto curto, mas suficiente para tirar um pouco essa dor misturada a carência idiota e um toque de revolta.
Nada cai do céu além de chuva por aqui. Preciso me lembrar disso para enfim ganhar  alguns ralados dessa vida como premio de conquista. Conquista essa de enfim dizer: eu fiz algo, eu mudei algo.
Gota a gota pelo ralo. Que os canos me levem para o caminho que preciso, a coragem e imposição. Voz firme, gota a gota, voz firme.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Aquarela

Hoje, enquanto fazia uma ilustração tola de natal, fiquei admirando meu kit de aquarela. Analisando suas cores, e a forma como ela passa de pó a tinta. Molhando-as com água filtrada, girando a cédulas do pincel em diversas cores, tornando azul e preto a cor do céu noturno. Como é intrigante que, dependendo da quantidade de água, ela pode ficar muito concentrada ou apenas um reflexo colorido no papel. Se ir com calma e usar diversos pinceis, consegues fazer contornos e detalhes mínimos tais como um lápis de cor. E o papel enrugado no final, vira o charme da manhã. Com paciência, após a secagem do papel, vem os detalhes finais: passa a caneta ali, reforça com lápis ali. Assina seu nome e pronto, uma obra de arte feita em casa e por si mesmo. Com aquarela de escola.
Sabe, assim é a vida. Você cria um esboço, dá alguns detalhes e pinta a cada dia um pouquinho da sua arte. Obviamente algo dá errado, talvez você erre a cor ou use muita água, mas daí percebe que aquele erro foi o detalhe perfeito que faltava para o desenho estar completo. E no fim, quando já tiver terminado todo o trabalho e tiver deixado o mesmo secar por completo, ele descolorirá.
A aquarela é a vida, a vida é a aquarela ambulante. Até quando vai a nossa arte? Você cuida bem da sua? Que cores usa para ela? É o ciclo da vida que se inicia para todos, sem exceção. No fim, todos são artistas. Talvez... Bom, talvez esteja na hora de lavar estes pincéis.